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terça-feira, 16 de junho de 2015

Ausência - Vinícius de Moraes



Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
 No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida 
E eu sinto que em meu gesto
 existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
 Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
 Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados 
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
 Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado. Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face. 
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada. 
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
 Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa. 
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço. 
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado. 
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
 Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
 E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas. 
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.

 Vinícius de Moraes

Bom Dia

 LOW


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