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sábado, 28 de setembro de 2013

O dia da chuva




Ela descobriu que não está segura.
 Que tudo pode mudar na sua vida sem dó nem piedade.
 E ela intimamente quer isso.
 Quer que tudo desmorone na sua cabeça e da dos outros. 
Ela não quer mais se esconder no seu mundinho encantado e rosa. 
 Ela descobriu que o seu mundinho encantado e rosa, não é tão encantado e rosa assim. 
Que o mundo grande e cruel pode ser mais seguro do que várias décadas em um casulo morno, protegido e confortável. 
 Descobriu que tudo tem hora para chegar. 
E que tudo pode chegar a qualquer hora.
 E ela nem teve tempo de se preparar.
 Mas ela já sabe que vai perder noites de sono pensando em como irá lidar com os turbilhões de sentimentos que estão por vir. 
 Ela descobriu que viver de verdade dá medo.
 Que viver de verdade dá frio na barriga. 
Viver de verdade a deixou vulnerável ao choro.
 Ao amor que não teve hora para vir e nem para ir. 
Aos problemas intermináveis que não cabem em qualquer gaveta. 
Mas ela precisa resolver um por um. 
Mas cadê a sensatez quando se está congelando por dentro? 
Quando se está estupidamente tapando os ouvidos enquanto a realidade bate a sua porta? 
Ela se pergunta. 
 Ser real dói. 
É confortável ser personagem de ficção.
 Mas ela enjoou do rosa. 
Deu náuseas.
 Apesar de seu mundo ser encantado e rosa, ela aprendeu a gostar do mundo real e colorido. Igual aquele dia de chuva que ela se encantou como se fosse um dia de sol.
 Ela passou a gostar da chuva.
 Do cinza.
 Do arco-íris que ela viu depois daquele banho de chuva. 
 Ela percebeu que agora quer todos os dias de chuva e de arco-íris depois da chuva.
 Ela quer a realidade que a chuva trouxe, e as trovoadas, e os pés na lama, e o cabelo embaraçado porque não deu tempo de arrumar, e o riso solto lembrando do dia da chuva. 
 Ela não quer mais o seu casulo confortável. 
E nem dias lindos de sol.
 E nem bailes de princesas. 
E nem dia certo para viver. 
Nem hora marcada para ver a chuva. 
Ela quer a realidade cinza, colorida, e do rosa misturado a todas as outras cores. 
Porque assim fica mais bonito. 
Porque assim fica mais divertido. 
 Porque isso é viver de verdade.
 Porque tomar banho de chuva nem é tão ruim assim. 
Porque se molhar, e se jogar, e não ter medo de nada, e se estrepar, e quebrar a cara, e sentir falta, e encarar a realidade, e sentir um medo danado de viver, é melhor do que achar que se está vivendo.
 E isso ela não quer mais.

by Juliana Dias

Bom Fim de Semana 
Low

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