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terça-feira, 22 de maio de 2012

Tem vez que cansa


Tem vez que cansa.

Cansam portas fechadas, chaves que não abrem as portas fechadas, a angústia por ainda não se saber como abri-las.

A vontade que tece o seu ninho nos galhos mais verdejantes e passa tempos chocando ovos que parecem que não vão mais se romper.

A espera pelo voo das borboletas que demoram crisálidas para se desvencilhar dos casulos.

O repetido surgimento do não quando a vida da gente prepara incansáveis banquetes de boas-vindas para osim.

O quase que se prolonga tanto que causa a impressão de ser interminável.

E, à espreita, sempre acompanhando os movimentos da nossa coragem, à distância, a perigosa perspectiva do nunca, aguardando cada brecha criada pelo cansaço para tentar nos dissuadir dos nossos propósitos.

Tem vez que cansa, sim.

E parece que somos incapazes de mais um único passo fora do território do nosso cansaço.

O ânimo desaparece sem deixar vestígios, pegadas na areia que nos levem até onde as suas águas refluem.

Sabemos que ele permanece lá, em algum lugar que temporariamente não acessamos, como o sol por trás de nuvens que querem chover mas não conseguem.

Sabemos que ele está lá e que precisa apenas de um tempo para se recompor.

Para soprar as nuvens e voltar à cena.

Para retomar o caminho com a gente.

Para nos lembrar outra vez, depois de outras tantas, que, aconteça o que acontecer, sob hipótese alguma queremos desistir do que nos importa.

Tem vez que cansa.

E parece que não há nada que possamos nos dizer que revitalize, de imediato, a crença na nossa capacidade de transformação.

Não é raro, sequer conseguimos ouvir a nós mesmos, a comunicação interrompida pelos ruídos momentâneos da negatividade.

Aquela conversa fiada mental que não nos leva a nenhum lugar bacana, o olhar estreito que não vê coisa alguma além do nosso próprio desânimo.

Esse cansaço às vezes é acompanhado por uma tristeza muito doída, que pede o nosso melhor abraço; outras, por uma raiva que pode se fantasiar com um monte de disfarces.

Quando a gente se cansa em demasia, o coração não canta, as cores desbotam, o tempo se arrasta pelos dias como se estivesse preso a imensas bolas de ferro.

Tem vez que a vida da gente cansa.

Pele sem viço, olhos sem lume, pés doloridos, os ombros retesados pelo peso que carregamos.

Cansa e precisa sentar um pouco para descansar, respirar grande, recobrar o fôlego.

Cansa e procura sombras de árvores, banhos de silêncio, acalantos capazes de fazer os medos dormirem.

Cansa e pede alegria, esse hidratante natural maravilhoso, também indicado para as fases de ressecamento da alma.

Cansa e quer nossa atenção amorosa, nossa escuta sensível, nosso cuidado macio, a generosidade própria dos amantes, essas dádivas que afrouxam apertos, massageiam a coragem, e fazem toda diferença do mundo, não importa qual seja a textura do sentimento da vez.

Tem vez que a vida da gente cansa e, se for suficientemente amada, depois retoma o caminho ainda mais forte.

Ainda mais bela, carregada de brotos das flores que mais dizem nossa alma.

Inteira.

[Ana Jácomo]

maria tereza cichelli

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